Cidade dos Monstros

Nenhum organismo vivo pode existir muito tempo com sanidade sob condições de realidade absoluta; até as cotovias e gafanhotos, supõem alguns, sonham. A Casa da Colina, desprovida de sanidade, se erguia solitária contra os montes, aprisionando as trevas em seu interior; estava desse jeito havia oitenta anos e talvez continuasse por mais oitenta. Lá dentro, paredes continuavam de pé, tijolos se juntavam com perfeição, assoalhos estavam firmes e portas estavam sensatamente fechadas; o silêncio se escorava com equilíbrio na madeira e nas pedras da Casa da Colina, e o que entrasse ali, entrava sozinho.

— A Assombração da Casa da Colina, Shirley Jackson

Ao invés dos locais comuns, a cidade dos monstros funcionava de acordo com as suas próprias regras. Ignorando o calor inexistente e a luz ausente do dia, preferiam sair de suas casas e revelar-se pela noite, para que a escuridão acolhesse suas diferenças, e as suas sombras se mesclassem ao mundo. De dia, todas as estruturas estão abandonadas. À noite, as lâmpadas se acendem, as vozes são ouvidas, e suas histórias são escritas novamente.



Bar

Com diversas mesas e cadeiras quebradas, ao olhar de longe a impressão sobre aquele bar era a completa destruição. Era notável, a partir das barbas de bebida atirada nas paredes e da quantidade de cacos de vidros no chão que ali havia sido palco para diversos conflitos entre criaturas desconhecidas. Ainda assim, por acaso do destino, algumas garrafas com bebidas de cor majoritariamente amarelada repousavam resilientes sobre prateleiras nas paredes, contendo dentro de si coisas esquisitas como uma cobra inteira ou ervas de folhas espinhosas. O cheiro ali também não era dos melhores, visto que a depredação havia aberto espaço para que descuidados posteriores invadissem o chão. Algumas camisinhas usadas e suas embalagens decoravam o chão com seu plástico envelhecido.

Pela noite, no entanto, a atmofera era outra. Assim como todos os demais estabelecimentos da cidade dos monstros, o mar carregava uma aparência mais rústica. A composição de sua aparência era composta por decorações de diferentes eras, como um balcão que remetia às lanchonetes coloridas dos anos 80, ao mesmo tempo, paredes decoradas com placas de madeira dos interiores nos anos 2.000, e detalhes fora de época que faziam daquele local um tanto peculiar. Bebidas mais variadas podiam ser encontradas do que anteriormente, e apesar da simplicidade do bar que tinha música majoritariamente ao vivo, dada a falta do uso da energia elétrica convencional, ele era minimamente limpo. Definitivamente não era um bar como de Las Vegas, mas talvez fosse algo semelhante a um bar que já teve vários donos com diferentes gosto em algum bairro menor de Oregon.



Biblioteca

Ao entrar, a visão é assustadora: não por de fato haver algo tenebroso ali dentro, mas sim o descanso em que o local se encontrava. Apenas uma das cinco estantes havia ficado de pé, e os livros estavam quase todos revirados no chão. Alguns sem capa, outros rasgados e sem conteúdo. Marca de chamas estavam no fundo da biblioteca, manchando a parede de escuro enquanto nem mesmo os insetos além das traças e paradas decidiam alojar-se ali dentro. Cupins roíam o interior da madeira fazendo com que pequenos grãozinhos de madeira caíssem sobre a área onde as estantes estavam.

Apesar do nome biblioteca, talvez o mais apropriado fosse uma "coleção de livros" ou um sebo, visto que todo o ambiente não passava de uma sala relativamente grande com, no máximo umas cinco divisórias formadas por estantes de livros. A biblioteca da cidade reunia os exemplares mais clássicos e aleatórios, como um livro do Drácula e do Franskestein, por exemplo, e outros clássicos da literatura. Ali também eram encontrados poucos livros de cunho mais religioso, além de alguns considerados mais científicos. A organização dos livros seguia por ordem alfabética. Num pequeno móvel de vidro negro, provavelmente feito com restos do vidro da Capital moldado por alguém habilidoso, estavam os livros escritos dentro da própria Oblivia, algo que não preenchia mais do que três fileiras. Visto que ali, sequer havia recursos o suficiente para que novos fossem feitos. As paredes possuem um tom amarelado, apesar de limpo, e a única mesa para sentar-se e ler é a mesma que a vigia do pequeno local se encontra.



Casas

Telhados repletos de musgo e uma atmosfera não muito acolhedora tomava conta da parte mais residencial da cidade, que era a maior. As casas, que em algum momento pareceu abrigar uma quantidade maior de pessoas, encontravam-se em sua maioria vazias. E mesmo entrando nelas, era raro encontrar registros daqueles que tinham sido seus habitantes em algum momento. Não havia muitos quadros de família pregados nas paredes, e nem mesmo porta-retratos sobre as mesas das cozinhas. A tinta de todas as casas estava descascando, e portas arrombadas haviam permitido que animais entrassem lá para fazer as suas necessidades. Fungos tomavam parte das paredes e do chão, e os móveis que talvez tivessem sido bonitos algum dia estava mofados e frios. Paralelepípedos compunham as ruas de pedra.

No cair da noite, os espíritos que habitavam as casas tornavam-se visíveis. Alguns deles configuravam estruturas semelhantes às famílias, outros, encontravam-se de forma menos organizada e às vezes até caótica. Fantasmas de pessoas antigas, mortos por acidentes, crianças natimortas, e amaldiçoados pelos deuses e muito mais viviam por ali. Havia, ainda, os que não tinham suas casas e continuavam nas ruas. O local, em si, tomava uma atmosfera um pouco mais acolhedora, apesar dos fantasmas. Algumas luzes podiam ser vistas acesas no interior dos cômodos, e até mesmo som de cachorros latindo alegres e gatos brincando podiam ser ouvidos. As casas tornavam-se mais limpas e um pouco coloridas, como se aquele local não passasse de um vilarejo antigo ao invés de uma cidade esquecida pelo tempo.



Cemitério

Lápides abandonadas com epitáfios bonitos estavam envelhecidas com o tempo. Se em um momento, as pedras foram lustrosas com os escritos bem entalhados indicando aqueles que residiam ali, agora, a poeira havia se inscrustado de forma tão fixa que muito mal dava para se ler o nome dos cadáveres. Entre os túmulos, cavados diretamente no próprio chão, uma grama ressecada e miúda estava estagnada, dispensando a necessidade de poda pois ela mesmo não crescia, como se preferisse ater-se à terra ao invés de buscar seu lugar nos céus. Além das lápides, cá ou lá, encontravam-se pétalas velhas de oferendas feitas aos mortos e velas derretidas solitárias sob a escuridão. Diferente de praticamente todos os lugares da cidade dos monstros, aquele era basicamente o único que comportava exatamente a mesma aparência de dia e de noite. Fosse o momento que fosse, os espíritos evitavam aquele local. Portanto, ele era sempre inabitado, ou ao menos, é o que se pensa. Uma pequena capela ao fundo encontra-se fechada. Não há a presença de muitas árvores, nem de muitas imagens. Apenas alguns estátuas esparsas e uma imensidão opaca preenchida pela névoa.



Floricultura/loja de ervas

Galhos endurecidos e sem vida perderam as suas folhas que tornaram-se pó sobre o chão. Muitas teias de aranha encontravam-se conectando os diferentes ramos secos e pétalas descoloridas voavam quando a brisa soprava. Um grande formigueiro cresceu perto de uma das paredes, e embora toda a cidade dos monstros não tivesse exatamente um vínculo tão bom com a natureza, aquele era um dos locais onde ele estava mais presente. Pequeninas plantas de um verde escuro cobriam as partes de terra do chão, musgo encontrava-se nos cantos onde a água pingava perto das torneiras, e partes quebradas do telhado faziam com que a goteira caísse nos dias de chuva, manchando a de vermelho a parte reformada do chão. Pedaços de vidro e frascos com tampas de rolha também eram visto espalhados, sem qualquer padrão específico.

Oblivia não tinha consigo cores muito vibrantes, mas provavelmente o local mais colorido dali era a floricultura da cidade dos monstros à noite. Havia flores semelhantes a rosas com um vermelho-vinho, tulipas de cor azul-noturno, e orquídeas amarelo-ocre timidamente organizadas em jarros até que bonitos. As paredes estavam limpas, apesar de possuir a sujeira natural que é esperada de uma loja de plantas. Para além disso, pequenos artigos de jardinagem também eram vendidos, como pás, vassouras, tesouras de poda, regadores e um pouco mais. Ainda assim, todos estavam empoeirados, pois as vendas não eram grandes já que as pessoas tinham outras prioridades para gastar dinheiro além de enfeites para as casas. Além de uma floricultura, ali era também um tipo de casa de ervas, e misturas curativas, adubos, poções de energia e outras coisas também podiam ser encontradas.



Igreja

Em plena luz do dia, os santos aparentavam estar mortos. Bancos vazios com algumas bíblias e outros livros abertos ou fechados davam a entender que alguém frequentava aquele local. A poeira acumulada na dobra dos vitrais ainda coloridos produzia sombras assustadoras nos rostos dos santos, dexiando claros que todos, fossem quem fossem, tinham mais de um lado a ser mostrado dependendo do ângulo a se observar. Velas derretidas pela metade ou inteiramente sujavam as paredes como lágrimas brancas, dando a entender que por uma última vez haviam usado aquele local antes dele tornar-se o que era possível se ver agora. Pequenas esculturas dos deuses e afins estavam com braços quebrados, rostos pichados ou até mesmo, sem cabeça. Um lugar cuja função é fortalecer a fé contraditoriamente dizia que a fé não era tudo.

No cair da noite, era possível ver as luzes se acendendo - e ali dentro, espíritos antes invisíveis começavam a tomar forma e cor. Junto disso, toda a poeira do local desaparecia, tornando-o tão limpo (ou tão sujo) quanto qualquer lugar normal. Espíritos de chifres retorcidos rezavam e seres alados conversavam tranquilamente na entrada. Pessoas cabeçudas demais e outros com a mão decepada entravam aos poucos para assistir ao próximo culto, que não era ministrado por um líder religioso em específico. Sabe-se lá como, aquele era um tipo de local onde todas as crenças se reuniam, onde todos tinham o direito e o poder de expressar-se aos seus próprios deuses sem que necessariamente fossem mal olhados ou julgados por isso. Apesar de alguns vitrais que remetiam ao catolicismo, figuras de entidades japonesas e indianas também estavam por ali. Símbolos nórdicos e celtas estavam estampados nos bancos e até mesmo algumas culturas indígenas eram representadas em um cantinho ou outro.



Parquinho

Brinquedos de ferro como balanços de grilhões e gangorras velhas estavam cheiro de poeira. Além de enferrujados, deixavam aquele local com um aspecto um tanto industrial, com seus tons metálicos de cobre, chumbo e latão. Pareciam tão pesados que nem mesmo um vento relativamente forte era capaz de fazê-los se mover. Ainda assim, aos que não se incomodavam, eles exerciam sua plena funcionalidade caso alguém forte o suficiente quisesse tentar. Todos os brinquedos rangiam, alguns estavam tortos por provavelmente terem ultrapassado o limite de peso, ou mesmo por terem entortado-se numa tempestade intensa. Naquele horário do dia, quem parecia aproveitar-se mais daquele local eram os ratos, visto que restos de comida e alguns acúmulos de cocô estavam em diferentes pontos do ambiente.

Quando o dia ia embora, os espíritos de crianças esquisitas e fofinhas balançando-se na gangorra e correndo pelo parquinho podiam ser vistos. Junto disso, alguns pais, de olhares cuidadosos, vigiavam do lado de fora. Alguns eram espíritos, outros, pequenos monstrinhos com a pele cor de rosa, vermelho, verde, azul e mais. Alguns com chifres, outros, com algo semelhante a poderes, brincavam de lançar pequenas porções de fogo um ao outro. Diferente da maior parte de Oblivia, ali era um lugar excepcionalmente barulhento, considerando que a risada das crianças e o ranger dos brinquedos velhos denotavam que ainda podia haver diversão ali. Não havia nada além do simplório, do ordinário, nas criaturas que usufruíam do local ou nele próprio. Mas, apesar das aparências diversas deles, sem dúvidas aquele tornava um dos lugares mais bonitos de toda a ilha.



Praça

De dia, o espaço da praça era assustador. Um silêncio ensurdecedor encontrava-se atrás de cada árvore, entre cada uma das pedras que delimitavam as calçadas. Não havia pássaros voando, não havia coelhos correndo pelo gramado, não havia nada que indicasse com força que havia vida naquele local. Ao contrário de um lugar macabro, por outro lado, também não havia nada que indicasse a morte. Não havia cadáveres de pássaros caídos no chão, nem mesmo o mal cheiro de carniça pelo apodrecimento da pele de algum bicho. Tudo o que havia era uma atmosfera inerte constituída por bancos quebradiços de madeira frágil, postes enferrujados com suas lâmpadas estouradas, e mais uma vez, um silêncio que fazia com que cada passo dado naquele espaço fosse audível à bons metros de distância.

As luzes quebradas dos postes enferrujados da praça tornavam-se coloridas de amarelo, laranja e vermelho, enquanto casais sentavam nos bancos e compartilhavam fofocas fantasmagóricas ao chegar da noite. As árvores secas, por um momento, pareciam criar folhas pequenas que cobriam o suficiente os galhos para que uma sensação de frescor fosse intensificada quando o vento uivava próximo das folhas. Os brancos, antes praticamente inexistentes, voltavam a ter uma madeira relativamente confortável e até mesmo limpa, o que permitia o descanso e a observação da natureza estranha que os observava de volta. Desde que a barreira havia sido enfraquecida, mesmo pássaros pousavam sobre algumas árvores, e ninhos podiam ser visto nos espaço entre os galhos e os troncos. Decorações festivas como laternas e bandeirinhas tornavam o local mais característico, com pequenas colinas cobertas de grama negra alguns buracos de animais pequenos no chão. Vendedores de algumas guloseimas típicas de Oblivia encontravam-se em pontos específicos da praça, sendo aquele um local relativamente populado da cidade.



Salão de dança

Pisos negros e brancos compunham um interessante padrão xadrez, destoando um pouco da bola de espelhos pendurada no teto que tinha algumas de suas peças reflexivas caídas no chão. Partes do piso tinha sido retirada por alguém, deixando apenas a parte de cimento exposta sem qualquer tipo de beleza. Os isolantes de som e temperatura que era comum nesse tipo de lugar estavam arrancados do teto e das paredes, enquanto partes expostas e quebradas do telhado permitiam a visão do céu escuro de Oblivia. Fios arrebentados e roídos estavam espalhados pelo piso do camarote, e as lâmpadas que deveriam trazer toda uma harmonia estavam quebradas sem sequer terem sido desencaixadas da condução elétrica. As grades que cercavam o camarote estavam, em partes, destruídas, enquanto a própria escada havia cedido ao peso do tempo e se rendido à gravidade.

No finalizar do dia, o globo espelhado do salão de dança começava a girar novamente, emitindo um brilho único para todos os lados enquanto a música das caixas de som tornava-se cada vez mais alta. Constituído mais especificamente por músicas de épocas mais antigas ao invés dos sucessos da atualidade, aquele salão tinha uma atmosfera que mais se assemelhava à uma discoteca do que à uma balada. Naquele local, especificamente, os tons escuros de Oblivia compunham uma bela visão em contraste com as luzes mais eletrônicas que mudavam de um lugar para o outro no ritmo da música. Uma máquina de fumaça ligada tornava a atmosfera mais completa, permitindo com que aqueles mais tímidos dançassem sem medo na pista de dança pois não podiam ser completamente vistos ou identificados quando no meio de todos. Numa das extremidades, havia banheiros e na outra, um tipo de bar que oferecia pequenos apertivos e uma variedade até que grande de bebidas.



Todos direitos reservados a Doug, Ruan, Aninha e Lid.
Criado em 01/08/2024. Editado em 27/04/2025.  
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